Acencio
O VIAJANTE DO TEMPO
Realismo
Fantástico
APRESENTAÇÃO
INTERAÇÃO ENTRE PINTURA E LITERATURA
Ao
longo dos anos passei por várias fases de pintura; enveredei-me por estilos e
Escolas diversos, cujos temas se voltavam essencialmente para os problemas sociais;
protestei contra guerras pseudo-religiosas até guerras preventivas (?);
contestei o sistema e seus poderes podres, injuriei-me sobre a maneira como a
história trata do nascimento do Brasil, como a igreja trata os seus rebanhos...
Repudiei a violência urbana, as queimadas de nossas matas, a devassa constante
de nossas riquezas pelos impérios do dia, etc., etc.. É bem verdade que também
exaltei alguns fatos, mas assim mesmo carregados de ironia... Tudo isso
continua ainda no horizonte dos meus questionamentos de cidadão atento e consciente.
Porém, chega um momento que a alma se esgota, e nos tornamos alquebrados; vem
então a necessidade de uma brisa fresca, de uma aragem que nos vivifique.
Após
enveredar-me por outras tantas incursões, vislumbrei agora a possibilidade de
retomar um trabalho inacabado, justamente do ponto de onde fora interrompido há
15 anos.
A idéia de promover uma
visita ao atelier dos mestres do passado, nacionais e estrangeiros, interferindo
em suas obras sem descaracterizá-las, surgiu de uma brincadeira em 1993 quando
coloquei minha cabeça no corpo da “Vitória de Samotrácia”,
bela peça da escultura helenística. Surgiram então estudos e o desejo de levar
ao público o projeto.
O básico é escolher uma obra
de cada artista clássico e promover a releitura e interferência da seguinte
forma: conservar os personagens centrais tais como foram elaborados pelos seus
autores e substituir uma das figuras coadjuvantes pela minha presença no
cenário (autos-retratos), trajando roupas de hoje. Símbolos contemporâneos
serão introduzidos em conformidade com a estética e equilíbrio do conjunto da
obra.
Eis dois exemplos: em “O
Batismo de Cristo” de Verrocchio, que em meu trabalho
levará o título de “Revisitando o estúdio de Verrocchio”,
eu tomo o lugar de João Batista; visto um roupão de banho e batismo Jesus com
luz; o símbolo usado é um aparelho que dou o nome de “Decodificador de energia
cósmica”. Outro exemplo é a interferência na obra “Marrat
Assassinado” de Jacques Louis-David; a releitura leverá
o título de “O tardio encontro de Aliatt”; neste caso
eu aproveito o espaço vazio na parte superior do quadro, coloco-me na penumbra,
como que chegando tarde ao encontro. O símbolo é representado por um controle
remoto flutuando no espaço – Marrat “estava vendo TV
quando foi assassinado”.
Além de Verrocchio
e David, participarão: Da Vinci, Courbet,
Aleijadinho, Velasquez, Pedro Américo, Caravaggio, Delacroix, Rembrandt,
entre outros.
Assim será o desenvolvimento
de todo o conjunto representado por 21 telas de 210x145cm.
Paralelamente ao trabalho pictórico há o projeto literário,
cujo personagem central, Ciocena – anagrama do meu nome, Acencio, faz uma
viagem no tempo e convive com os mestres escolhidos por ele no intuito de
entender melhor suas obras e conseguir subsídios para uma nova investida de
projetos no futuro.
Todo este trabalho representa para minha carreira o
fechamento de um ciclo de grande aprendizado.
Última
década do século XX. Ciocena, um pintor de estilo
figurativo, ligado ao Realismo Fantástico é surpreendido por uma visita
inusitada e fora dos padrões de comunicação conhecidos.
Seres
superiores de mundos paralelos vinham observando o artista há muito tempo. Esse
contato na verdade veio ao encontro de uma espécie de chamamento que o pintor
teria acionado ao longo de sua vida. Nestes últimos tempos Ciocena
andava inconformado com os rumos da arte contemporânea e desejava ardentemente
promover uma mudança mas não tinha a mínima idéia de
como poderia ser feito. Essas inquietações vibraram fortemente em direção ao
espaço sideral e parece que havia sido atendido.
Então,
uma relação amistosa e extremamente benéfica entre o plano desconhecido e o
artista, propicia a este a possibilidade de
concretizar o seu sonho, ou seja, realizar um grande projeto.
Inicia-se
assim a transposição mental do artista para outra dimensão com o objetivo de
prepará-lo a uma viagem no tempo. Essa viagem, induzida pelos seus mentores tem
o firme propósito de buscar soluções para criar uma nova ordem pictórica.
Visitar e interagir no passado; o cenário perfeito para entender melhor o
presente e tentar modificá-lo.
Sua
viagem inicia-se no fervilhante atelier do mestre Verrochio
em Florença. Como se diz na linguagerm comum, Verrocchio é pau pra toda obra. Muito solicitado pelo
dinamismo do seu trabalho e a maneira como dirige o ensinamento a seus discípulos.
O nosso personagem viajante entra no cenário por volta de 1470, ano que o velho
mestre faz uma viagem a Roma.
Ciocena permanece em Florença até final de
1475, ano de nascimento de Michelangelo. Nesse meio tempo estabelece contato
com Da Vinci e Botticelli. Enquanto Botticelli se preocupa em expressar através
do desenho um ritmo gracioso, com suas figuras resgatadas da antiguidade Grega
e da tradição cristã, Leonardo tem seu interesse por desvendar os mistérios da
natureza; sua índole investigativa o leva a procurar entender tudo em sua
volta. Com este gênio fabuloso Ciocena está à
vontade.
Embora
os mentores tenham todos os controles que conduz a sua viagem, por conta de
criaturas do Plano Invertido, Ciocena sofre um revez e acaba sendo detido pelos guardas da Inquisição,
comandado por Savonarola.
Por
volta de 1511, Michelangelo conta com 36 anos de idade e já trabalha na Capela
Sistina. Seu contato com Michelangelo é singular; personalidade forte, rude,
mas aberto ao novo.
Em
1519 morre Da Vinci, na França; Ciocena visita-o em
seus últimos momentos e segue em direção a Roma ao encontro de Rafael; sublime,
doce figura e eterna lembrança. O ideal de beleza levado com maestria e
equilíbrio. No ano seguinte, com apenas 37 anos, morre um dos pilares do
Renascimento, deixando a obra estudada por Ciocena
inacabada.
A
jornada no tempo continua 48 anos depois na cidade de Bruxelas. Pieter Bruegel, feliz com o
nascimento de Jan, seu segundo filho e às voltas com a obra de interesse de seu
visitante. Lamentavelmente no ano seguinte vem a falecer.
Em
1601 Ciocena volta a Roma para ver Caravaggio. Encontra um homem desequilibrado emocionalmente
por conta de sua prisão em processo movido por Baglione.
Graças à intervenção do embaixador francês em Roma o artista teve sua prisão
relaxada. Mesmo assim o nosso viajante é aceito em seu atelier, pois, como
todos os outros ele sabia de sua chegada e o esperava. É considerado um pintor
briguento, mas afável quando se digna a compor cenas religiosas. A visita de Ciocena a Caravaggio deixa-o
profundamente comovido com a dramaticidade e o esmero no tratamento do
claro-escuro.
Em
Antuérpia, nos Paises-Baixos, Ciocena
encontra um artista com o qual nutre certa admiração, Van Dick, um dos
talentosos discípulos de Rubens. A monumental obra “O Rapto das Filhas de
Leucipo” é o início de seu contato com o mestre Rubens. Artista muitíssimo
disciplinado costuma entregar em dia as encomendas que lhe são confiadas.
De
Antuérpia, direto para Madrid onde Velásquez vive desde 1623. É então o pintor
oficial da côrte. Ciocena
chega a meio aos primeiros esboços do “Triunfo de Baco”, em 1628. Despede-se de
Velásquez no ano seguinte; este segue em sua primeira viagem à Itália e o
Viajante do Tempo segue direto para Holanda; hoje liberta ao encontro do mestre
Rembrandt. Ciocena chega exatamente no ano em que
Rembrandt transfere-se para Amsterdam. Ciocena fica
feliz por ter encontrado o mestre num dos momentos mais abençoados de sua
carreira. É a partir de 1632, com a execução de sua tela “Lições de Anatomia do
Dr.Tulp” que Rembrandt inicia sua ascenção.
Vale
lembrar que o próximo a ser visitado acaba de nascer em outra cidade não muito
longe, Delft.
Quarenta
anos depois Ciocena chega a Delft onde Vermeer mantém o seu atelier. Neste ano de 1672 o artista
encontra-se em Haia vendendo quadros. Ciocena aguarda
sua chegada. O mestre o recebe efusivamente. Ciocena
permanece com ele até sua morte em 1675.
Após
viajar por três séculos, os mentores de Ciocena
promovem uma pausa. Ciocena retoma o seu dia-a-dia,
em seu tempo real.
Após
alguns meses é chamado novamente para a conclusão do projeto. Inicia-se agora
uma nova jornada rumo ao século XVIII.
Novamente
o ponto de partida é a Itália. Chega a Veneza em 1732 para seu encontro com Tiepolo. Têem que trabalhar
rápido; neste mesmo ano o artista segue para Bérgamo.
Tiepolo se encontra ainda em busca de aprimoramento
técnico, mas se mostra muito capaz. Só pra lembrar, dois anos do seu encontro
com Tiepolo nascia em terras das Minas Gerais, no
Brasil, aquele com o qual Ciocena nutre grande
respeito e admiração; ele é seu próximo anfitrião: Aleijadinho. A visita ao
grande mestre da escultura barroca se dá 68 anos depois, no tempo virtual. Já maduro
infelizmente muito enfermo e atrofiado, é o maior exemplo e a grande lição que Ciocena tem em conta. Apesar de sua deformidade física
possui um espírito de gigante.
Ainda
no século XVIII Ciocena vai à França. O próximo que o
espera é o recém-eleito deputado à Convenção Revolucionária de 1792,
Jacques-Louis David. Tempos conturbados estes em Paris. David executa então sua
obra mais comovente; um tributo pessoal ao líder da revolução morto, Marat.
Ciocena entra finalmente no último século de
sua etapa de viagens. Em 1827 encontra-se com Ingres.
Vale lembrar que este anfitrião estudou com David quando contava com 17 anos de
idade. Agora, com 47, é um pintor respeitado; há dois anos foi eleito membro da
Academia de Belas-Artes em Roma, onde mora atualmente.
Ainda
na Itália Ciocena volta 10 anos no tempo e se
encontra com Géricault que está pintando e estudando
as obras de Michelangelo, Rafael e Bernini. Em 1818
se encontram novamente em Paris. Neste ano nasce o seu único filho, fruto de
uma ligação clandestina. Isola-se e inicia o esboço de sua grande obra “A Balsa
do Medusa”. Ciocena e Delacroix lhe fazem companhia. Delacroix
posa para o quadro. Após a viagem de Géricault à
Inglaterra em 1820, Ciocena permanece no atelier de Delacroix e participa na execução da tela “A Barca de
Dante”, dois anos depois.
Em
1854 Ciocena se encontra com Courbet.
No início de sua carreira ele costumava frequentar o
Louvre para estudar seus mestres prediletos; Rembrandt e Hals.
Desde 1850 ele havia rompido com a Escola Clássica e se dedicava ao Realismo.
Edouard Manet nasceu em Paris e ainda jovem
visitou o Rio de janeiro no Brasil. O seu encontro com Ciocena
se dá em 1863, ano de execução da obra “Piquenique na Grama”.
Esta
obra causa um escândalo na sociedade parisiense. O nosso artista viajante
permanece com Manet até o seu casamento com Suzanne Leenhoff.
Após
exatamente 30 anos Ciocena entra novamente em contato
com um artista brasileiro; Pedro Américo. Sua trajetória se inicia em Areia na
Paraíba, onde nasceu e termina em Florença onde foi consagrado e considerado um
dos mais famosos artistas de sua época.
É
em Florença que Ciocena o encontra após haver
melhorado de uma moléstia que havia contraído no Brasil. Neste período realiza
vários estudos históricos e conclui sua tela “Tiradentes Esquartejado”. Volta
ao Rio de Janeiro para expor sua obra, onde é bem recebido. Ciocena
volta ao seu tempo real.
Um
novo chamamento para o encontro com seu último anfitrião; Almeida Junior, que
já o esperava ansiosamente. O talentoso artista foi aluno de Pedro Américo mas não seguiu sua Escola; antes, optou por consagrar em
suas telas o povo simples de sua terra. Embora tenha estudado também na França,
como tantos outros, sua cabeça estava voltada para sua querida Itu, cidade
paulista.
Ciocena é muito bem recebido. O mestre
caipira e de bem com a vida troca informações com o visitante e celebra sua
obra “Amolação Interrompida”.
Aparentemente
a viagem de Ciocena chegara ao fim, porém, o sistema
que controra todo o processo de virtualização
da viagem apresentou uma estranha anomalia... Ciocena
volta no tempo e presencia o assassinato de Almeida Junior.
Em
Brunéia, sede dos complexos preparativos para a
realização da viagem de Ciocena, é encerrado o procedimento.
No
tempo real, de volta ao seu cotidiano Ciocena prepara
a execução dos trabalhos para a finalização de seu projeto. A conclusão o
levará a se enveredar por outros horizontes.