POESIAS
Somos Cromos Somos
A 27 DE DEZEMBRO DE 1987, NO ATELIER DE PAULO ACENCIO,
CONVERSANDO SOBRE ARTE E POESIA, E A RESPEITO DE SOMOS CROMOS SOMOS. ENTREVISTA
CONCEDIDA AO ESCRITOR VENTURA DE LA FUENTE.
VF: Na concepção de uma obra, seja poética ou pictórica, já
que você é artista plástico, além de poeta, é
desenhista e artista gráfico, qual é a condição mágica que você precisa para
escrever um poema?
PA: Bom, eu acho que a condição mágica, como você disse,
ela não está nas coisas externas, está dentro de você. Então, não existe um
momento preciso para se criar. Os poemas, por exemplo, eu os crio a maior parte
das vezes quando estou viajando, quando estou passeando, quando estou, sabe,
até mesmo dentro de um ônibus, de repente a inspiração vem,
realmente como se não fosse eu que estivesse escrevendo, como se fosse intuído
por alguma força. Então há necessidade, naquele momento, de botar alguma coisa
no papel.
VF:Você acha que isso tem muito a ver com o intimismo
do artista, mesmo em uma condição pouco propícia como uma viagem de ônibus, mas
é um momento único em que a gente está se encontrando consigo mesmo?
PA: Eu acredito muito mesmo nisso, o fundamental é que o
ambiente não faz o artista, de jeito nenhum..., porque, veja bem, se você está
dentro de um ônibus cheio de gente, você não tem a mínima condição de criar, se
você tivesse que pensar em termos de ambiente, com certo conforto. Então para
criar um poema, escrever, bastaria que você tivesse um
pedaço de papel à mão e um lápis ou uma caneta e você já estaria criando.
VF:
A temática de sua poesia é intimista e também universal, é uma temática cheia
de sentimentos e interrogações. É por isso que eu gostaria que você, Acencio,
falasse sobre sua poesia, essa poesia que constrói a obra que se chama Somos
Cromos Somos.
PA: Veja bem, a poesia como a minha pintura, eu a tenho
feito de forma muito responsável. Eu acredito que é uma responsabilidade muito
grande, para o poeta ou para o pintor, na hora de colocar sua mensagem, porque
ele está expondo a mensagem para outras pessoas, então ele vai fazer que as
pessoas se despertem para alguma coisa que chamou a atenção, talvez, em você,
então você vai ser o instrumento de tudo que absorveu dentro da sociedade. A
minha obra é mais universal, por isso eu vejo a problemática toda, o universo
todo, não é apenas o regionalismo, eu não vejo, por exemplo, a problemática
como local. Se está havendo um conflito lá em Belfast,
isso mexe comigo, porque se trata de seres humanos, semelhantes, com problemas
interiores iguais aos nossos, basicamente é isso...
VF:
Agora, PAULO ACENCIO, como poeta, além de grande pintor, ele escreve sobre
diferentes temas, sobre o instinto, ou sobre a magia, a reflexão ou o encanto,
sobre o fluxo ou refluxo, sobre a rotina. Paulo, esse reflexo da vida, da
realidade, na tua poesia, tem alguma relação íntima com a tua pintura?
PA: Eu acredito que sim, já que não pode estar
desvinculado. Na própria pintura, em determinadas fases, eu sigo um caminho, em
termos de proposta, e dentro dessa proposta existem várias determinantes que
abrangem todos esses aspectos que a poesia também absorve em seus aspectos
gerais. Então, por exemplo, se você lê um poema meu, é como se estivesse vendo
uma pintura. Alguém já leu e disse: “Esse poema aqui é um quadro seu!” Quem
conhece minha pintura, lendo meus poemas vai entender essa relação, e quem ler
os meus poemas e depois conhecer minha pintura vai fazer também a mesma
relação.
VF:
Quer dizer, a sua arte está intimamente vinculada... Acencio, que representa
pra você seu projeto tanto literário quanto plástico na sua vida?
PA: A arte para mim, desde criança, digo adolescente, aos
16 anos já comecei a perceber que ela se tratava, não apenas de uma profissão,
mas de uma missão, então a partir disso a responsabilidade cresceu muito mais,
a partir do momento de minha consciência disso. Meu objetivo dentro da arte é
fazer com que as pessoas entrem em contato com o meu trabalho, mudem de alguma
forma seu comportamento, claro, para melhor. Através de mim, eu creio que é
essa a missão que eu tenho, em termos de arte, de poesia, da pintura, é
justamente fazer alertar determinados pontos. Se de repente eu mesmo às vezes
falho, porque também sou humano, dentro de minha poesia ou de minha pintura eu
procuro com que se possa abrir-se os olhos das pessoas
para que não falhem.
VF:
Então eu posso entender que sua poesia e a sua pintura estão definitivamente
comprometidas com a realidade social, com o povo, com a dor do povo. Você acha
que os artistas são dessa maneira importantes em um processo social e político
contingente?
PA: Não tenho dúvidas a esse respeito, não tenho dúvida
nenhuma. Há os artista que não têm consciência disso,
então fazem a arte como profissão, jogam a tinta de forma desordenada. Não
estou falando de estilos, estou falando da maneira de conceber uma obra,
desordenadamente, sem a preocupação de querer passar uma mensagem, você sabe
também, que há os poetas que botam coisas no papel, sem o mínimo de
sentimentos.
VF:
De certa forma são artífices da poesia e não verdadeiros mensageiros.
PA: Exatamente...
VF:
Faz algum tempo eu estava assistindo na TV uma entrevista que fizeram alusiva
aos 80 anos do arquiteto Oscar Niemeyer, e como você sabe, ele é um homem muito
comprometido com o social, e sua militância no Partido Comunista Brasileiro.
Ele falava que a sua arte, a sua arquitetura não é nada frente à dor e à fome
do povo, mas se a sua arquitetura, neste caso, serve para alertar àqueles que
conduzem o povo, a missão estaria lograda, o que justamente coincide com as
suas palavras, Acencio. Eu acho interessante essa conecção, entre Niemeyer e
você, realmente existe uma coincidência mágica.
PA: Sim, são termos diferentes da mesma mensagem, mas
convergem ao mesmo ponto.
VF:
Quando começou esse afã, essa inquietude literária de colocar além das cores as
palavras nos teus quadros?
PA: Eu acredito que quando a gente vem com a bagagem da
arte, o nosso leque, o meu o seu, é um leque aberto; por isso tem alguns pontos
determinantes dentro da arte que ficam latentes. E de uma hora para outra
realmente eles escapam. Eu acredito que foi logo depois que eu cheguei a São
Paulo em 58, lá por 62 comecei o curso de arte, nos anos 60, por aí, 63 mais ou
menos, começou a despertar essa inquietude. É difícil
dizer com precisão o momento; eu acredito que algum estímulo fez com que isso
aflorasse...
VF:
Geralmente os críticos ou as pessoas que se dedicam a comentar livros ou fazer
prólogos de livros, e sobretudo o primeiro livro de um
artista conhecido dentro de uma prática que é a plástica, e que agora está
lançando seu primeiro poemário, se preocupem muito com a forma, com a
qualificação ou classificação da poesia, se é surrealista, neo-surrealista, se
é intimista, etc., mas eu acho que não tem ninguém melhor que o poeta para
classificar sua poesia. Como você, Paulo, classifica sua poesia?
PA: Eu diria que a classificação de minha poesia é
exatamente igual à classificação de minha pintura. Você vai verificar na minha
biografia, que eu denominei Realismo Introspectivo, justamente é essa análise
íntima, minha e de nossos contemporâneos. Eu acredito que meus poemas também
são Realismo Introspectivo. Esse é um termo que eu criei; pode não estar
correto mas eu sinto que é isso.
VF:
Você pode dar uma definição do Realismo Introspectivo?
PA: Definição? Aí você me pega porque é algo que eu
sinto; e o sentimento não se define...
VF:
Bom, introspecção é chegar fundo dentro de si mesmo...
PA:
Exato, eu procuro também tomar as coisas mais fundas de dentro dos
outros..., principalmente de nossos contemporâneos, claro.
VF:
Então você faz introspecção ao coletivismo...
PA:
É exatamente isso. Não chega a ser, por exemplo, quando falo de Realismo
Introspectivo, somente de uma análise do meu íntimo, é uma análise da
sociedade, e eu aproveito isso para fazer um trabalho dentro o Realismo
Introspectivo. Na verdade, eu já passei por fases dentro da pintura; fases
abstratas, fases quase resvalando o surrealismo, mas sempre dentro do realismo,
já que, se você verificar, o abstrato é, às vezes o
mais puro realismo.
VF:
Tem uma coisa que para mim é muito importante que são os cheiros, a plástica em
geral está cheia de cheiros químicos muito agradáveis, então qual é o cheiro
para você da poesia?
PA:
(Risadas) Nossa! Isso é profundo...! (risadas) Eu nunca havia pensado em
termos de cheiros da poesia... mas eu acredito que a
poesia tem o cheiro da essência...
VF:
Da matéria...
PA:
Sim, da matéria, cheiro da essência, cheiro até mesmo do insenso, é um
cheiro mágico realmente, é cheiro de madeira, de terra, de chuva, é cheiro de
gente.
VF:
A poesia é um reflexo da natureza...
PA:
Exato, ela faz parte integrante, ela é como uma semente que você joga e
cresce... ela faz parte.
VF:
A sua constância na criação literária é coincidente com a sua constância na
criação pictórica?
PA:
Não, não é, não! A pintura tem muito mais
evidência. No caso da produção literária eu vou trabalhando em cima das
intuições, eu nunca parei com um bloco de papel na mão e falei “Bom, agora eu
vou escrever!”, nunca aconteceu isso. São reflexos intuitivos que vou
aproveitando, e vou lançando no papel, estruturando; é diferente da pintura.
Talvez a diferença esteja justamente no fato de eu ter dominado a pintura, você
entendeu? É um cavalo que já domei, e a poesia ainda não
consegui, ainda não sentei especialmente para escrever um poema, ele
nasce, ele flui...
VF:
Bom, eu estou lendo aqui o poema chave do seu livro Somos Cromos Somos e em uma
parte diz:
Inoportuno
fruto do abandono,
Burgo-fisionomia inata,
Sócio-ideológico.
Separatividade
imatura;
Forçosamente
forçado,
Se fez tão ávido
Por
um licor tão puro
De
sabor utópico.
A
que se percebe realmente que a sua poesia é um reflexo da inquietude que tem os
homens sensíveis, por tudo isso que está acontecendo em nossa volta, que não
sempre é muito agradável, de todas as injustiças, etc. Paulo, por tudo isso eu
gostaria que você falasse de Somos Cromos Somos. O que é esse filho pra você?
PA:
Esse é um filho que nasceu talvez num momento de angústia, não angústia
pelos meus problemas, mas como a gente já falou a respeito, angústia pelos
problemas sociais. Não tem muito o que dizer, ele é e
pronto, ele nasceu realmente de um pranto, não tem muito o que falar a seu
respeito, só senti-lo...
VF:
Isso que você fala de Somos Cromos Somos, é como um pai que tem um filho, mas
esse filho está meio indefinido, está meio formando-se ainda, é como aquela
pedra que amanhã será um busto para o escultor ou uma vasilha para a dona de
casa; o livro também é assim, é como um diamante que tem que ser trabalhado,
tem que ser apurado. Mas seu livro está trabalhado e apurado, mas é o rosto
dele que você não vê muito claro, este rosto que a gente vai construir
juntos... Agora eu queria lhe falar outra coisa, a literatura é geralmente
inspiradora tanto para o poeta quanto para o prosador. Eu cheguei aqui e vi um
livro na sua mesa de trabalho, El Romancero Gitano de Frederico Garcia
Lorca, e vi também um livro de poesias de Fernando Pessoa. Posso supor que são
seus autores preferidos?
PA:
Assim como acontece com a música, não existe um autor preferido, existem
obras que me chamam mais a atenção em determinados autores, então seria fazer
injustiça dizer que eu gosto mais de Garcia Lorca ou Pessoa, sendo que tem tantos outros bons autores, a lista é tão infindável;
assim como a música erudita me fascina, desde os Cantos Gregorianos até as
músicas eletrônicas de Tomita, Kitaro e Paul Horn. Então, dentro de
determinados autores existem coisas que me agradam e que não me agradam,
acontece a mesma coisa coma poesia...
VF:
Agora, eu gostaria de saber, depois desse livro Somos Cromos Somos, qual seria
ou qual será seu outro salto, seu outro pulo, literariamente falando?
PA:
Bom, assim como tenho uma fase de pintura e não sei qual seria a próxima
fase, eu não sei dizer pra você qual será a próxima fase em termos literários,
a única coisa que eu tenho certeza é que eu vou dar continuidade, porque esse
primeiro livro vai ser pra mim uma realização, você bem sabe que esse livro está, há anos borbulhante, engasgado, pronto para soltar.
Enquanto você tem uma obra colocada na gaveta, ela não é válida ainda, ela está
inválida, você criou e guardou, eu acho ridículo isso,
mas na verdade, não houve a oportunidade, materiais principalmente, e agora
como surgiu a oportunidade com a Folhia de Poesia eu acredito que possa ser uma
realização, e a partir daí, não tenha dúvida, amigo, que haverão outros livros.
VF:
Bom, estamos recebendo hoje, SOMOS CROMOS SOMOS e vamos definir seu corpo, a
cor de seus olhos, e essa criança vai cantar para a poesia brasileira e
esperamos seja muito benvinda. Obrigado, Paulo Acencio...