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Poesias

A você que acredita em sua capacidade de objetivar os seus anseios; a você que coloca a vontade como meta prioritária e acima de outras coisas; a você que no dia a dia procura crescer sem prejudicar seus semelhantes; a você que respeita e faz respeitar os direitos dos outros; a você que é ciente de que todas asrespostas estão em si mesmo; a você que tem cumprido honestamente todas as suas metas de vida. 

 

 

SOMOS CROMOS SOMOS


 

 Ser ou estar,

 é uma questão de colocação

 do fruto advindo da semente,

 brotada da incerteza dos homens.

 Fruto inseguro;

 lembrança do que era;

 miséria.

 

 Inoportuno fruto do abandono.

 Burgo-fisionomia inata,

 sócio- ideológica.

 Separatividade imatura;

 forçosamente forçado,

 se fez tão ávido

 por um licor tão puro

 de sabor utópico.

 

 Lançai as vozes-lançai,

 enquanto o tempo ainda o é,

 enquanto a hora se faz mansa,

 suspirando atrás dos panos

 da algibeira em farrapos.

 E os bombardeios – lançai-os

 aos buracos profundos

 na face escura da lua,

 onde os incapazes esperam

 os pseudo-privilegiados.

 

 Esta hibernação fatigante

 dos que se dizem homens,

 no decadente frontispício

 da passagem.

 Contempai a putrefação dos vermes;

 pois que a chegada se faz.

 O fruto advindo da semente

 começa a ser e estar,

 começa a proliferar no mundo,

 a se fazer verbo e voar.

 

 Era uma imensidão de concreto

 e de metal;

 se fez ruir e virou pó,

 e tranformou-se no que era

 antes de ser.

 E a soma do pó e das migalhas

 transformou-se no que somos;

 preposição indefinida

 como somos.

 Cor, colores, cromos.

 E o macrocosmo nos fez

 cromossomos

 definitivamente.

 

 

 

 

 


HOMOVITA


 Sinto frio na alma, criança

 sinto frio;

 quando penso que o teu futuro está em jogo.

 Esses ignóbeis seres obscuros

 são insensíveis à tua dor;

 a dor de um destino incerto e tão frágil.

 

 Sinto um aperto no peito, criança

 quando vejo a tua silhueta esguia e triste

 oriunda de tanto sofrimento.

 Corpinho cansado, coberto de trapos,

 e os pezinhos descalços.

 

 Sinto fadiga no corpo, criança

 quando olho nos teus olhos

 e percebo a profundidade da vida.

 Tua pele macia coberta de lama,

 encobrindo o teu suor salgado

 de tanto trabalho.

 

 Sinto um clangor no espírito, criança

 quando ouço o teu choro;

 barriguinha vazia, meu Deus,

 a canequinha cheia de água suja;

 o poço seco, riacho fundo e poluído

 

 Sinto uma vergonha imensa, criança

 por ter nascido humano,

 e fazer parte do rol dos irresponsáveis,

 de contribuir para o cinismo dos tecnocratas.

 Sinto vergonha

 por ser um dos culpados de tuas feridas

 e nada fazer pelos teus anseios de viver.

 

 Oh, eu tenho mãos atadas

 e é com elas que eu liberto os homens

 do vazio.

 

 Sinto um amor tão grande criança

 que o teu futuro poderá mudar;

 estes grilhões que me consomem

 poderão ter um fim, e aí então...

 ah, aí então saberei conduzir as diretrizes

 e te libertar dessa fatigante agonia.

 

 Sinto uma esperança que me invade, criança

 e já vislumbro a tua sorte;

 o equilíbrio entre a tua alma límpida

 e o teu corpo plácido;

 o teu espírito terá tanto esplendor

 quanto a tua vontade de crescer.

 E então nascerá de ti um ser vibrante;

 serás homem em sua síntese, criança

 serás homem!

 


FLUXO E REFLUXO


 

Serenas formas,

 formas brandas,

 brandindo o espaço sideral.

 

 Considere a norma

 simplesmente morna

 virando o vidro visceral.

 Contemple o mar,

 amar distante

 no alarmante vendaval.

 A bola entala na garganta,

 sufoca o grito infernal.

 Tocando a lira

 bem distante

 ao som do frio hibernal.

 De mesa em mesa

 bebendo vozes

 no banquete matinal.

 De pauta em pauta

 ilesa, verbarante,

 no alaúde medieval.

 Na sombra escura, fatigante,

 da gota quente tropical.

 

 Sonhei amar

 amar no sonho

 a vênus negra e reluzente

 cantando um lânguido madrigal.

 Sonhei da vida

 o vinho seco,

 banhando a face bacanal.

 Saltei estrelas,

 mundos distantes

 buscando o arquétipo universal.

 Brandindo a espada,

 cortando o vento

 rolando ao fundo lamaçal.

 

 Espero respostas da vida,

 vivo e revivo

na existência magistral.

 


 

 MAGIA

 


 

Soltei a mente

 na inclemência do tempo;

 fugi das horas loucas

 e dementes.

 Pulsando na vida

 a cor gigante

 no peito inflamante,

 a lei da verdadeira que é saudade

 tombada de vez.

 E o ato atroz

 sombrio e decadente

 mordeu a serpente

 do lânguido murmúrio.

 Dei asas ao vento

 na forma ilusória,

 no fogo arrogante

 da superioridade

 Matei meu vício

 de não ser cordial;

 lancei noutras terras

 o amor sem igual;

 com nuances cativas

 belas e altivas.

 

 Joguei o meu corpo

 na luz da neblina;

 atirei minha face

 aos suspiros ilesos;

 joguei meus augúrios

 no lixo do mal.

 Lancei minha alma

 no espaço vazio,

 na imensa galáxie

 do labor vital.

 Canto à luz

 que me guia agora;

 no cosmos talvez,

 na lembrança

 do crepúsculo

 do mês.

 

 Sussurros ao longe...

 desperta-se o ar

 rarefeito.

 Eu trago à vida

 a cor da façanha,

 com belezas e formas,

 nuances tamanhas.

 O monstro desfeito,

 corta com os próprios dentes

 a hipotética corda

 que o ata ao leito.

 

 Numa pincelada sadia

 crio a brisa sideral,

 o cântico da alegria

 multidimensional.

 Transfiguro a cada instante,

 a força que ora em mim viceja.

 Acordo a humanidade mansa

 que na manhã de abril

 boceja – ou seja,

 faço a corda da lira

 soar fremente.

 E os brados nascem,

 e os olhos vêem,

 e as estrelas caem.

 

 A dança dos homens

 nas imensas alturas;

 poema de ouro,

 quimeras canduras.

 Sublimação da estética.

 Contemplação paradoxal

 do inexorável.

 


PINCELADAS NO AR


 

 Ai, quem me dera ver-te

 vertendo brumas;

 Ai, quem me dará verde

 verberando prumo;

 Ai, quem mandara vir-te

 varrendo tudo.

 


ROTINA

 

 


 

Nascer, crescer

 e se tornar homem

 é cada vez mais difícil.

 Somos condicionados

 a partir do momento

 que somos gerados.

 Nossos pais ingerem drogas

 e respieram fundo a fuligem.

 Sofremos o impacto nefasto

 do concreto e do aço,

 nas construções desumanas.

 Nossos tímpanos são dilatados

 através dos sons oriundos

 da doutrina tecnocrata.

 

 E estas pobres criaturas

  esquecem-se da alma

 que os impulsiona e anima.

 E o dia bastardo se faz noite,

 e a noite se faz dia,

 e mais um dia.

 Caem na obscuridade

 e mergulham no lodo da incerteza.

 O pó do carbono suja a artéria

 e a razão única de viver

 torna-se matéria.

 


RUINAS


 

Eis o que nos aguarda

 neste fim de século: ruínas.

 Fragmentos do passado...

 Ruínas em tudo que fazemos,

 mesmo que sejam os nossos atos

 os mais puros.

 Puras migalhas...

 migalhas de ilusões.

 E onde andamos...

 andamos com certeza absoluta

 de um passo certo;

 de peito erguido,

 pois temos ciência

 do mal que nos empurra

 no tropeço indigno.

 Em cada palavra,

 em cada olhar,

 em cada ato, somos

 apenas ruínas de nós mesmos.

 

 Nascemos,

 temos direito à vida

 mesmo indevida.

 Nosso corpo padece,

 e no fim é carne pútrida.

 A humanidade não está segura

 de seus ideais;

 a imagem do espelho é frágil

 e as ruínas serão fatais.

 As conquistas serão vitoriosas

 mas acabarão em ruínas.

 Todo olhar manso cairá qual ruínas

 porque as pálpebras estarão cansadas

 de contemplar o vazio dos homens.

 Ruínas,

 palavra que atormenta a própria dor

 que não suporta de ruir.

 Mas...

 Eis a esperança que sai do fundo da alma.

 Toda ruína será ruína

 e todo aquele que não cair

 verá brotar dos escombros

 um novo mundo.

 


BALADA ABALADA


 

A mácula que cala a voz e o traço,

 Incontido rubro por sobre o azul febril;

 Devaneios e sonhos apertando o laço

 Sob o triste fado que levou Henfil.

 

 


MONÓLOGO DO ARTISTA


 

Todo aquele que olha a vida

 entende que a mesma é passageira

 e transfigura-se;

 descobre o viver, da melhor maneira.

 Ela corre por uma tubulação

 que vem, sabe á de onde,

 e quando aprisionada precipata-se

 no caos da incerteza,

 e recebe um novo caminho quando livre

 dando origem à estética e à beleza.

 Aclara-se em nós a chama da verdade

 quando descobrimos o segredo

 da iluminação da consciência.

 Somos a ilusão

 que nós próprios vislumbramos.

 A vida que passa e se liberta é ilus~/ao;

 ao precipitar-se, é ilusão;

 o que vemos e sentimos

 são ilusões.

 Esta, essa e aquela arte são ilusões;

 eu que as criei sou ilusão;

 você que as contempla é ilusão, pois

 tudo o que existe é abstração.

  E a vida é deliciosamente simples.

 

 


 

FORMA E CONTEUDO

 


 

 ATO I

 Forma da forma lânguida

 no contra- vento da solidão frugal;

 as portas abertas da sensibilidade

 na brisa do cosmo,

 no macro distãncia,

 no fosso abissal.

 A fisionomia da vida em essência

 aperta atroz a primeira ruga

 a nascer sombria no plano formal;

 desce tristemente uma lágrima tímida

 pelos canais da macia pele rósea,

 vivida e cansada de milênios afãs;

 atravessa o leito turvo da memória

 e rodopia no estertor espiral.

 

ATO II

 Forma da forma força

 na sinfônica coreografia,

 no toque do tempo

 a dançar magia,

 superlotando o espaço da hora

 na fenda das nuvens,

 a saltar gigante de esfera em esfera,

 na ferocidade de cada instante,

 partindo do princípio,

 onde o sabor da vida é lutar.

 Ora se faz gente, mtio ora se faz,

 quando no lusco- fusco dos deuses

 o verme se faz loquaz.

 

ATO III

 Forma da forma bela

 no raio vibrante do sol,

 na embriagante música lunar,

 na doçura da pétala purpúrea,

 no sensitivo olhar criança,

 a verdadeira forma de amar.

 Líricas luzes que atigem

 formosamente a retina

 da visão grandiosa dos sábios;

 pássaros que voa por sobre as cabeças

 maravilhosas dos anjos.

 Linha pontilhada de certezas

 na aprocura do ponto final,

 entre outras volumosas formas fugazes.


ATO IV

 Forma da forma humana

 do micro fio de cabelo

 ao plano horizontal dos pés;

 brisa soprando a face desnuda

 do cromossomo a se formar ovóide;

 vozes que ressoam ao longe

 na corrida desenfreada

 dos espermatozóides.

 Nutrindo o plástico ser do acaso,

 na transformação direta da proporção

 que se quer segui.

 julgando e libertando energias

 na modificação das células

 que haverão de vir.

 

 


paulo@acencio.com