Sinto frio na alma, criança
sinto frio;
quando penso que o teu futuro está em jogo.
Esses ignóbeis seres obscuros
são insensíveis à tua dor;
a dor de um destino incerto e tão frágil.
Sinto um aperto no peito, criança
quando vejo a tua silhueta esguia e triste
oriunda de tanto sofrimento.
Corpinho cansado, coberto de trapos,
e os pezinhos descalços.
Sinto fadiga no corpo, criança
quando olho nos teus olhos
e percebo a profundidade da vida.
Tua pele macia coberta de lama,
encobrindo o teu suor salgado
de tanto trabalho.
Sinto um clangor no espírito, criança
quando ouço o teu choro;
barriguinha vazia, meu Deus,
a canequinha cheia de água suja;
o poço seco, riacho fundo e poluído
Sinto uma vergonha imensa, criança
por ter nascido humano,
e fazer parte do rol dos irresponsáveis,
de contribuir para o cinismo dos tecnocratas.
Sinto vergonha
por ser um dos culpados de tuas feridas
e nada fazer pelos teus anseios de viver.
Oh, eu tenho mãos atadas
e é com elas que eu liberto os homens
do vazio.
Sinto um amor tão grande criança
que o teu futuro poderá mudar;
estes grilhões que me consomem
poderão ter um fim, e aí então...
ah, aí então saberei conduzir as diretrizes
e te libertar dessa fatigante agonia.
Sinto uma esperança que me invade, criança
e já vislumbro a tua sorte;
o equilíbrio entre a tua alma límpida
e o teu corpo plácido;
o teu espírito terá tanto esplendor
quanto a tua vontade de crescer.
E então nascerá de ti um ser vibrante;
serás homem em sua síntese, criança
serás homem!