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Entrevistas

PREMIER
Colors 99
2a Edição


P: Quando você iniciou a sua carreira como artista plástico?

A: Oficialmente, logo após haver concluído o meu estágio de 5 anos no atelier do Mestre Romano Abedante em 1966.

P: Trabalhar com arte sempre foi sua meta ou você teve outras profissões?
A: Sempre foi minha meta trabalhar com arte.

P: Qual a sua trajetória profissional?

 


A: No início frequentei feiras de arte, participei de uma infinidade de salões; ora recusado, ora aceito e premiado. Através de muita pesquisa e observação fui aprimorando o meu trabalho até encontrar uma linguagem própria. Passei por estilos e Escolas diversas, do realismo puro ao abstracionismo. Pratiquei técnicas as mais diversas, de garatujas a assemblages.
Há algum tempo optei pelo Realismo Mágico ou Fantástico por entender ser esta Escola mais condizente com a minha natureza.

P: Qual é a sua formação acadêmica?

A: A base de minha formação é o classicismo; alicerce fundamental para o conhecimento do desenho e da anatomia humana.

P: Em quem você se inspirou no começo de sua carreira?

 


A: Em Leonardo Da Vinci.

 

 

P: Você pensava em ser famoso e se tornar a personalidade que se tornou?

A: Sim, acredito ser esse o sonho de todo artista.

 

P: Qual foi a pessoa que primeiramente acreditou em seu talento?

A: Minha mãe. Aos 8 anos de idade eu ganhei um belíssimo presente seu; uma caixa de lápis de cor e um caderno de desenho com folhas de sêda intercaladas; na capa, a ilustração da obra “O Grito do Ipiranga” de Pedro Américo. Foi inesquecível.

 

P: Quais foram as exposições que você participou e em que época?

A: Foram tantas que não será possível enumerá-las aqui.

 

P: Que mensagem você gostaria de deixar para os novos artistas?

A: “Se você realmente acredita em seu talento, não se deixe divagar pelas variações intempestivas do mercado; cultive a paciência, trabalhe muito e acima de tudo mantenha sempre acêsa a chama da perseverança.”

 

P: Como você vê o trabalho dos artistas plásticos no mundo atual?

A: Infelizmente há muita desinformação e pouco interesse pelas questões filosóficas e estruturais da arte, bem como a falta de um comprometimento social. Acredito que estamos passando por transformações morais em nosso planeta e que no próximo século a arte e o artista reconquistarão primazia. O problema do artista hoje é que se encontra totalmente desestimulado.

 

P: Em sua opinião, o que seria prioritário fazer para divulgar ainda mais as artes plásticas no Brasil?

A: Antes de tudo é necessário promover uma reforma na educação de base e disceminar a arte entre nossas crianças. Por outro lado, grandes nomes da arte brasileira estão encobertos pelo véu do abandono. Nossas instituições deveriam resgatar esses valores. Para nós, artistas contemporâneos bastaria uma atenção maior da mídia e ações pontuais de empresas estatais e privadas a exemplo do que a Premier está fazendo. De resto é cada artista fazer sua parte.

 

P: Como você vê a sua arte?

A: Eu tenho tentado esgotar todos os meus limites. Sinto que estou no caminho certo porque escolhi a forma de linguagem e comunicação que me dá prazer e alegria e isso passa, creio, ao espectador. Porém, o que me deixa inteiramente confortável é a certeza de que eu tenho muito que aprender.

 

P: Faça sua definição sobre arte.

A: Arte é a manifestação da alma; é a mantenedora do fluxo da percepção e materialização dos sonhos. É o fio condutor que nos une a outros mundos.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


AUTVIS


 

AUTVIS: O seu estilo é o Realismo Fantástico. Como descobriu esse estilo e por que você trabalha com ele?

ACENCIO; Eu tive formação clássica. Após algum tempo senti necessidade de mudança; algo novo que me desse a possibilidade de criar livremente. As primeiras experiências me conduziram ao Surrealismo, um parente próximo do Realismo fantástico, ou Mágico; na sequência, após a realização de alguns trabalhos, surgiu então, meio tímido ainda, este que é semelhante à maneira de como eu vejo a vida. O Realismo Fantástico está presente até mesmo nos meus sonhos de todas as noites.

 

AUTVIS; Como você define o seu estilo profissional?

Acencio: Sou um Artista Plástico; termo abrangente que nos dá a possibilidade de trânsito por vários seguimentos da arte.

 

AUTVIS: Quais são seus planos e projetos para 2010?

ACENCIO: Além de estar aberto a encomendas de quaisquer ordens, porque, afinal eu preciso viver, pretendo dar continuidade ao projeto “Viajante do Tempo” que se encontra parado há alguns anos. Trata-se de interferências nas obras de mestres do passado; envolve pintura e literatura. Na página de meu site há mais informações a respeito.

 

AUTVIS: Em qual projeto você está trabalhando atualmente?

ACENCIO: Atualmente estou trabalhando em dois painéis de 145x195cm cada para a Prefeitura de Ribeirão Pires; é complemento do projeto “Paisagens Históricas” que realizei em 2007 a pedido do prefeito Clóvis Volpi, composto de 20 pinturas. A obra completa será apresentada ao público no próximo mês de março, no aniversário da cidade e posteriormente será criado um espaço para abrigar a coleção permanentemente.

 

AUTVIS: Em média, quantas exposições você realiza por ano?

ACENCIO: Nos últimos dez anos eu reduzi consideravelmente o número de exposições. As coletivas passaram para três em média; já as exposições individuais, uma a cada dois anos.

 

AUTVIS: Qual dos seus trabalhos você considera o mais importante?

ACENCIO: Normalmente o artista considera cada traço ou pincelada, uma realização; é assim que a evolução é constituída. Porém, em termos gerais eu considero os trabalhos mais recentes os mais importantes; posso citar o projeto de Ribeirão Pires, “Paisagens Históricas” e “A Sagrada Família”, retábulo encomendado pela organização Opus Dei.

 

AUTVIS; As suas obras abrangem vários temas. Existe algum deles que tenha preferência? Por quê?

ACENCIO: Eu gosto de trabalhar todos os temas porque tudo pode ser transformado em obra de arte; mas eu tenho um fascínio pela anatomia humana em todos os aspectos; considero a expressão humana, algo soberbo, movimentos de infinitas possibilidades.

 

AUTVIS: Na sua concepção, qual o tema mais difícil de desenvolver?

ACENCIO: É justamente no Retrato humano que eu me nutro de desafios; foi por isso que optei por trabalhar também nesta linha. A dificuldade é a ferramenta que nos conduz à superação.

 

AUTVIS: Em seu site diz que, além das Artes Plásticas você tem feito incursões na Literatura, nas Artes Gráficas e na Fotografia. Por favor, fale um pouco de seu trabalho nessas áreas e o que eles representam pra você?

ACENCIO: O meu trabalho nas artes gráficas foi mais assíduo nas décadas de 70/80; criava logotipos e logomarcas para empresas, ilustrações para capa de livros de várias tendências, confecções de leiautes e artes finais de folhetos e catálogos.

A fotografia sempre foi algo mais pessoal e coadjuvante do trabalho de pintura. Ligado que sou ao Realismo, a fotografia é usada para captar as poses das minhas personagens; é aí que se inicia o meu processo criativo. Eu não gosto de pintar com modelos me observando.

Eu tenho certa vocação para a poesia. Tenho um livro publicado, “Somos Cromos Somos” e outro ainda embrião, “Haximu”; daí, o meu pé na literatura. Escrevi também muitas apresentações críticas para meus colegas e amigos. Atualmente estou escrevendo um romance que faz parte do projeto de pintura, o “Viajante do Tempo”. Em meu site há uma sinopse deste livro. Apenas para situar, o meu estilo literário é semelhante ao pictórico.

 

AUTVIS: Há quanto tempo é associado da AUTVIS?

ACENCIO: Há aproximadamente cinco anos.

 

AUTVIS: Por favor, dê um depoimento ressaltando a sua importância AUTVIS para o artista?

ACENCIO: Pelo simples fato de saber que temos uma AUTVIS, ou seja, uma representante responsável e respeitável nos dando o suporte que tanto precisamos, sentimo-nos seguros no trato com nossos negócios. É um mecanismo de defesa de grande importância para os artistas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Suplemento D Revista do DIÁRIO DE SUZANO

 A ARTE DA PERSEVERANÇA.

Taís Aranha


DS: Como descobriu a vocação artística?

PA: Eu costumo dizer, até em tom de bricadeira que, no momento do parto minha mãe teve dificuldades de tirar o pincel, porque eu nasci junto dele. Na verdade, desde criança. Na escola primária eu era convidado pela professora a fazer trabalhos no quadro negro para os colegas copiarem. Sempre tive esse contato com tinta, com papel.

 

DS: Você fez algum curso para se tornar um artista profissional?

PA: Fiz quando já estava em São Paulo, com 16 anos de idade no atelier de um mestre Veneziano, Romano Abedante. Frequentei o curso por cinco anos. Até então eu não levava a arte como profissão. Eu tinha uma consciência muito grande de que, enquanto não estivesse aprimorado não dava para trabalhar profissionalmente. Fui estudando, pesquisando bastante e, quando saí da escola de arte comecei a caminhar com meu estilo próprio de trabalho.

 

DS: Em sua opinião, é importante para o artista ter formação acadêmica?

PA: A escola acadêmica dá todas as bases para o artista. Desde a “garatuja” até anatomia. Depois, quando se parte para um trabalho mais moderno é preciso alçar vôos, se desligar da escola acadêmica, o que é um pouco difícil.

 

DS: Você completou 30 anos de carreira artística. Tem idéia de quantos quadros produziu ao longo desse tempo?

PA: Não tenho; a gente acaba perdendo a conta. Chega uma hora que se torna impraticável o acompanhamento de todo o trabalho. Mas eu confesso que produzi muito.

 

DS: Você se dedica somente aos trabalhos artísticos ou tem outra atividade?

PA: Só à arte. A única coisa paralela à pintura são cursos que eu dou; workshops e no atelier.

 

DS: Fale um pouco do Workshop “Conceitos”, iniciado ontem no Centro de Educação e Cultura “Francisco Carlos Moriconi”.

PA: É um curso para quem já tem certo conhecimento das técnicas de pintura.

 

DS: Quais as maiores dificuldades para seguir carreira artística no Brasil?

PA: A falta de cultura básica. Acho que a criança já devia ter arte na escola, desde o começo. Ficaria muito mais fácil para as pessoas compreenderem o que é arte. Por outro lado, os problemas econômicos que sempre nos rondaram dificulta o artista a caminhar. É preciso ser gigante para viver de arte neste país. Muitos que conseguem fazem trabalhos paralelos para não deixar a peteca cair. Muitos sucumbem...

 

DS: Você se considera um privilegiado por ter um conhecimento no campo artístico?

PA: Sim, porque é uma parcela muito pequena de artistas que consegue isso. Desculpe-me a falta de modéstia, mas eu também me permito dizer que eu tenho talento e força de vontade. O artista precisa ter muita perseverança.

 

DS: Você já participou de várias exposições no Exterior. Existe muita diferença entre a visão que se tem da arte no Brasil e em outros paises?

PA: Justamente por causa da cultura, no exterior a arte é mais valorizada. Na Europa, as crianças já nascem em contato com a arte; em nosso país a maioria das pessoas passa fome.

 

DS: Recentemente Suzano realizou seu primeiro Salão Acadêmico, do qual você foi um dos jurados. Como vê o desenvolvimento da cultura na cidade?

PA: Pelo simples fato de haver um centro cultural já é um ponto altamente positivo para a cidade porque são poucas as que têm.

 

DS: Você nasc eu em Juazeiro-BA e é radicado em São Paulo desde 1958. Como veio a descobrir Suzano?

PA: Acho que foram os amigos. Quando a gente tem bons amigos acaba sempre atraído.

 

DS: Como surgiu o convite para fazer parte da vice-presidência de honra do XXV Salão de Arte Contemporânea em Revin, na França?

PA: Quando estive na Europa em 1991, participando do 19º Salão Internacional de Arte Contemporânea, fiz contatos pessoais importantes na França. Eles analisaram minha obra e fizeram a indicação.

 

DS: Quando será realizado o XXV Salão?

PA: Ele inicia em Setembro; deve permanecer por volta de dois meses.

 

DS: Quando os suzanenses terão a oportunidade de visitar uma exposição sua no Centro Cultural?

PA: Estamos para marcar. Qualquer hora dessas a gente marca uma exposição aqui.

 

DS: Quando você não está pintando, o que mais gosta de fazer?

PA: Meu hobby é fotografia e cozinha. Gosto de fazer coisas diferentes, pratos diferentes, de acumular receitas (risos).

 

DS: Assim como pintar, fotografar e cozinhar também são artes...

PA: Interessante, não é? Eu não escolhi. Eu sou poeta também. Tenho um livro publicado, “Somos Cromos Somos”.

 

DS: Quem são seus ídolos na área artística?

PA: Sou fã incondicional de Leonardo Da Vinci, que sempre foi meu grande mestre. Depois de Leonardo há uma porção deles. Tanto é que vou fazer um projeto de interferências denominado “Viajante do Tempo”.

 

DS: Qual o objetivo deste projeto?

PA: É fazer uma visita aos grandes mestres que viveram entre os séculos XV e XX, com temáticas reunidas numa única mostra didática para que o espectador possa entender os trabalhos.

 

DS: Tem algum sonho que gostaria de realizar?

PA: Ter um grande atelier.

 

DS: Deixe uma mensagem para os novos artistas que estão querendo conquistar seu espaço.

PA: Que, quando perceberem que têm talento, que o caminho realmente é a arte, use a perseverança como aliada, sempre. Fora isso, não há mais nada. É através da perseverança que você consegue extrapolar tudo, vencer qualquer barreira.

 

 

 


A 27 de dezembro de 1987, no atelier de Paulo Acencio,
conversando sobre arte e poesia, e a respeito de
Somos Cromos Somos.
Entrevista concendida ao escritor Ventura de La Fuente.


 

VF: Na concepção de uma obra, seja poética ou pictórica, já que você é artista plástico, além de poeta, é desenhista e artista gráfico, qual é a condição mágica que você precisa para escrever um poema?
PA: Bom, eu acho que a condição mágica, como você disse, ela não está nas coisas externas, está dentro de você. Então, não existe um momento preciso para se criar. Os poemas, por exemplo, eu os crio a maior parte das vezes quando estou viajando quando estou passeando, quando estou, sabe, até mesmo dentro de um ônibus, de repente, a inspiração vem realmente como se não fosse eu que estivesse escrevendo, como se fosse intuído por alguma força. Então há necessidade, naquele momento, de botar alguma coisa no papel.

 

VF: Você acha que isso tem muito a ver com o intimismo do artista, mesmo em uma condição pouco propícia como uma viagem de ônibus, mas é um momento único em que a gente está se encontando consigo mesmo?

PA: Eu acredito muito mesmo nisso, o fundamental é que o ambiente não faz o artista, de jeito nenhum..., porque, veja bem, se você está dentro de um ônibus cheio de gente, você não tem a minima condição de criar, se você tivesse que pensar em termos de ambiente, com certo conforto. Então para criar em termos de um poema, em termos de escrever, bastaria que você tivesse um pedaço de papel à mão e um lápis ou uma caneta e você já estaria criando.

 

VF: A temática de sua poesia é uma temática intimista e também universal, é uma temática cheia de sentimentos e interrogações. È por isso que eu gostaria que você, Acencio, falasse sobre sua poesia, essa poesia que constroi a obra que se chama Somos Cromos Somos.

PA: Veja bem, a poesia como a minha pintura, eu a tenho feito de forma muito responsável. Eu acredito que é uma responsabilidade muito grande, para o poeta ou para o pintor, na hora de colocar sua mensagem, porque ele está colocando a mensagem para outras pessoas, então ele vai fazer que as pessoas se despertem para alguma coisa que chamou a atenção, talvez, em você, então você vai ser o instrumento de tudo o que você observou dentro da sociedade. A minha obra é mais universal, por isso eu vejo a problemática toda, o universo todo, não é apenas o regionalismo, eu não vejo, por exemplo, a problema como local. Se está havendo um conflito lá em Belfast, isso mexe comigo, porque se trata de seres humanos, semelhantes, com problemas interiores iguais aos nossos, basicamente é isso...

 

VF: Agora, Pauo Acencio, como poeta, além de grande pintor, ele descreve sobre diferentes temas, sobre o instinto, ou sobre a magia, a reflexão ou o encanto, sobre o fluxo ou refluxo, sobre a rotina. Paulo, esse reflexo da vida, da realidade, na tua poesia, tem alguma relação íntima com a tua pintura?

PA: Eu acredito que sim, já que não pode estar desvinculado. Na própria pintura, em determinadas fases, eu sigo um caminho, em termos de proposta, e dentro dessa proposta existem várias determinantes que abragem todos esses aspectos que a poesia também absorve em seus aspectos gerais. Então, por exemplo, se você lê um poema meu, é como se estivesse vendo uma pintura. Alguém já leu e disse: “Esse poema aqui é um quadro seu!” Quem conhece minha pintura, lendo meus poemas vai entender essa relação, e quem ler meus poemas e depois conhecer minha pintura vai fazer também a mesma relação.

 

VF: Quer dizer, a sua arte está intimamente vinculada... Acencio, que representa pra você seu projeto tanto literário quanto plástico na sua vida?

PA: A arte para mim, desde criança, digo adolescente, aos 16 anos, já comecei a perceber que ela se tratava, não apenas de uma profissão, mas de uma missão, então a partir disso a responsabilidade cresceu muito mais a partir do momento de minha consciência disso. Então meu objetivo dentro da arte é fazer com que as pessoas entrem em conato com meu trabalho, mudem de alguma forma seus comportamentos, claro, para melhor. Através de mim, eu creio que é essa a missão que eu tenho, em termos de arte, em termos de poesia, de pintura, é justamente fazer alertar determinados pontos. Se de repente, eu próprio, às vezes, falho porque também sou humano, mas dentro da minha poesia, de minha pintura, faço com que possa abrir-se os olhos das pessoas para que não falhem.

 

VF: Então, eu posso entender que sua poesia e sua pintura estão definitavemente comprometidas com a realidade social, com o povo, com a dor do povo. Você acha que os artistas são dessa maneira importantes em um processo social e político contingente?

PA: Não tenho dúvidas a esse respeito, não tenho dúvida nenhuma. Há os artistas que não têm consciência disso, então fazem a arte como profissão, jogam a tinta de forma desordenada. Não estou falando de estilos, estou falando de maneira de conceber uma obra, desordenadamente, sem a preocupação de querer passar uma mensagem, você sabe também, que há os poetas que botam coisas no papel, sem um mínimo de sentimentos.

 

VF: de certa forma são artífices da poesia e não verdadeiros mensageiros.

PA: Exatamente...

 

VF: Faz algum tempo eu estava assistindo na televisão, uma entrecista que fizeram alusiva aos 80 anos do arquiteto Oscar Niemeyer, e como você sabe, ele é um homem muito comprometido com o social, e sua militância no Partido Comunista Brasileiro. Ele falava que a sua arte, a sua arquitetura não é nada frente à dor e à fome do povo, mas se a sua arquitetura, nesse caso, serve para alertar àqueles que conduzem o povo, a missão saria lograda, o que justamente coincide com as suas palavras, Acencio. Eu acho interessante essa concepção, entre Niemeyer e você, realmente existe uma coincidência mágica.

PA: Sim, são termos diferentes da mesma mensagem, mas convergem ao mesmo ponto.

 

VF: Quando começou esse afã, essa inquietude literária de colocar além das cores as palavras nos teus quadros?

PA: Eu acredito que qaundo a gente vem com a bagagem da arte, o leque da gente, o seu, o meu, é um leque aberto; por isso tem alguns pontos determinantes dentro da arte que ficam latentes. E de uma hora para outra, realmente eles escapam. Eu acredito que foi logo depois que eu cheguei a São Pauo em 58, lá por 62 eu comecei o curso de arte, nos anos 60, por aí, 63, mais ou menos, começou a despertar essa inquietute. È difícil dizer com precisão o momento; eu acredito que algum estímulo fez com que isso aflorasse...

 

VF: Geralmente os críticos ou as pessoas que se dedicam a comentar livros ou fazer prólogos de livros, e, sobretudo o primeiro livro de um artista conhecido dentro de uma prática que é a plástica, e que agora está lançando seu primeiro poemário, se preocupam muito com a forma, com a qualificação ou classificação da poesia, se é surrealista, neo-surrealista, se é intimista, etc., mas eu acho que não tem ninguém melhor que o poeta para classifiar sua poesia. Como você, Paulo, classifica sua poesia?

PA: Eu diria que a classificação da minha poesia é exatamente igual á classificação da minha pintura. Você vai verificar na minha biografia, que eu denominei Realismo Introspectivo, Justivamente é essa análise íntima, minha e de meus contemporâneos Eu acredito que meus poemas também são Realismo Introspectivo. Este é um termo que eu criei; pode não estar correto, mas eu sinto que é isso.

 

VF: Você pode dar uma definição do Realismo Introspectivo?

PA: Definição? Aí Você me pega porque é algo que eu sinto; e o sentimento não se define...


VF:
Bom, introspecção é chegar fundo dentro de si...

PA: Exato, eu procuro também tomar as coisas mais fundas de dentro dos outros... principalmente de nossos contemporâneos, claro.

 

VF: Então você faz introspecção ao coletivismo...

PA: È exatamente isso. Não chega a ser, por exemplo, quando falo de Realismo Introspectivo, somente de uma análise do meu íntimo, é uma análise da sociedade, e eu aproveito isso para fazer um trabalho dentro do Realismo Introspectivo. Na verdade, eu já passei por fases dentro da pintura, fases abstratas, fases quase resvalando o surrealismo, mas sempre dentro do Realismo, já que, se você verificar, o abstrato é, às vezes, o mais puro realismo.

 

VF: Tem uma coisa que para mim é muito importante que são os cheiros, a plástica em geral está cheia de cheiros químicos muito agradaveis, então qual é o cheiro para você da poesia:

PA: (Risadas) Nossa! Isso é profundo...! (risadas) Eu nunca havia pensado em termos de cheiros de poesia... mas eu acredito que a poesia tem o cheiro da essência...

 

VF: Da matéria...

PA: Sim, da matéria, cheiro da essência, cheiro até mesmo de incenso, é um cheiro mágico realmente, é cheiro de madeira, de terra, de chuva, é cheiro de gente.

 

VF: A poesia é um reflexo da natureza...

PA: Exato, ela faz parte integrante, ela é como uma semente que você joga e cresce... ela faz parte.

 

VF: A sua constância na criação literária é coincidente com a sua constância na criação pictória?

PA: Não, não é, não! A pintura tem muito mais evidência. No caso da produção literária eu vou trabalhando em cima das intuições, eu nunca parei com um bloco de papel na mão e falei “Bom, agora vou escrever!”, nunca aconteceu isso. São reflexos intuitivos que vou aproveitando, e vou lançando no papel e vou estruturando, é diferente da pintura.  Talvez a diferença esteja justamente no fato de eu já ter dominado a pintura, você entendeu? É um cavalo que já domei, e a poesia ainda não consegui, ainda não sentei especialmente para escrever um poema, ele nasce, ele flui...

 

VF: Bom, eu estou lendo aqui o poema chave do seu livro Somos Cromos Somos e em uma parte diz:

 

               Inoportuno fruto do abandono.

              Burgo-fisionomia inata,

              sócio-ideológico.

              Separatividade imatura;

              forçosamente forçado,

             se fez tão ávido

            por um licor tão puro

           de saber utópico.

 Aqui se apercebe realmente que a sua poesia é um reflexo da inquietude que tem os homens sensíveis, por tudo isso que está acontecendo em nossa volta, que não sempre é muito agradável, de todas as injustiças, etc. Paulo, por tudo isso eu gostaria que você falasse de SOMOS CROMOS SOMOS. O que é este filho para você?

PA: Este filho é um filho que nasceu talvez num momento de angústia, não angústia pelos meus problemas, mas como a gente já falou a respeito, angústia pelos problemas socias.  Não tem muito que dizer, ele é e pronto, ele nasceu realmente de um pranto, não tem muito que falar a seu respeito, só sentí-lo...

 

VF: Isso que você fala de Somos Cromos Somos, é como um pai que tem um filho, mas esse filho está meio indefinido, está meio formando-se ainda, é como aquela pedra que amnhã será um busto pra o escultor ou uma vasilha para a dona de casa; o livro também é assim, é como um diamante que tem que ser trabalhado, tem que ser apurado. Mas seu livro está trabalhado e apurado, mas é o rosto dele que você não vê muito claro, esse rosto que a gente vai construir juntos... Agora eu queria lhe falar outra coisa, a literatura geralmente é inspiradora tanto para o poeta quanto para o prosador. Eu cheguei aqui e vi um livro na sua mesa de trabalho, El Romancero Gitano de Frederico Garcia Lorca, e vi também um livro de poesias de Fernando Pessoa. Posso suporque são seus autores preferidos?

PA: Assim como acontece com a música, não existe um autor preferido, existem obras que me chamam mais a atenção em determinados autores, então seria fazer injustiça dizer que eu gosto mais de Garcia Lorca ou Pessoa, sendo que têm tantos outros bons, a lista é tão infindável, assim como a música erutida me fascina, desde os Cantos Gregorianos até as músicas eletrônicas de Tomita, Kitaro e Paul Horn. Então, dentro de determinados autores existem coisas que me agradam e que não me agradam, acontece a mesma coisa com a poesia...

 

VF: Agora, eu gostaria de saber, depois desse livro Somos Cromos Somos, qual seria ou qual será seu outro salto, seu outro pulo, literalmente falando?

PA: Bom, assim como tenho uma fase de pintura e não sei qual seria a próxima fase, eu não sei dizer para você qual será a próxima fase em termos literários, a única coisa que eu tenho certeza é que eu vou dar continuidade, porque esse primeiro livro vai ser para mim uma realização, você bem sabe que esse livro está há anos aqui borbulhante, engasgado, pronto para soltar. Enquanto você tem uma obra colocada na gaveta, ela não é válida ainda, ela está inválida, você criou e guardou, eu acho ridículo isso, mas na verdade, não houve a oportunidade, você tem que criar a oportunidade tem que haver oportunidade, materiais principalmente, e agora como surgiu a oportunidade com a Folhia de Poesia, eu acredito que possa ser uma realização, e a partir dele, não tenha dúvida, amigo, que haverão outros livros.

 

VF: Bom, estamos recebendo hoje, Somos Cromos Somos e vamos definir seu corpo, a cor de seus olhos, e essa criança vai cantar para a poesia brasileira e esperamos seja muito benvinda. Obrigado, Paulo Acencio...

Entrevista concendida por Acencio ao escritor Ventura de La Fuente.

 

 

 


 


CYBERARTS


 

 

Seguem algumas perguntas para você falar livremente sobre você. A idéia é criar um volume de informações para gerar um texto sobre o artista e a pessoa.

 

 

Visitando CyberArtes será fácil verificar que os textos sobre os artistas tendem, sempre que os conhecemos, a ser intimistas e bem humorados.  Claro que ao falarmos de Rembandt não podemos ter intimidade, mas mesmo assim os textos são cheios de comentários pessoais. Quase inevitavelmente estão na primeira pessoa, quer sejam escritos por mim ou por Ronaldo. Quem vai escrever, é uma coisa resolvida na hora e sempre há a supervisão do outro.

 

Obrigada

 

Rê Rodrigues

 

 

 

 

 

1 – Como é o processo criativo? Alguns artistas fazem esboços seguidos, cada vez mais elaborados, antes de partirem para o trabalho final. Outros simplesmente fazem tudo de uma vez. Como acontece com você?

 

Antes eu crio mentalmente as figuras e suas posições no espaço; faço um esboço mental. Trabalho os modelos através de fotografias, assim a execução fica mais livre; não gosto de modelos me observando o tempo todo. Ato contínuo vou à tela depois de preparada e inicio um esboço mais elaborado. Após a secagem da pintura do primeiro plano eu parto para o fundo, ou cenário. Esse cenário é composto sempre de uma paisagem onírica, sem referências e altamente intuitiva, é onde as figuras ficarão flutuando no espaço;  após a secagem desse cenário eu volto à figura do primeiro plano e dou acabamento.

 

2 – Você trabalha com sua arte todos os dias? Trabalha somente quando tem vontade, quando acontece inspiração ou sente a obrigação de produzir? Tudo o que você faz está a venda?

 

Sim, eu trabalho todos os dias, mesmo que sejam algumas pinceladas. A inspiração já está imbutida; ela já habita em mim; assim sendo eu sinto necessidade de produzir. Tudo o que eu faço está à venda; afinal eu sou um operário e arte é também o meu ganha pão.

 

3 – Como foi o início? É artista desde criança? Como foi a decisão de que iria ser artista?

 

Acho que minha mãe teve problemas no parto; deve ter sido difícil extrair os pincéis que eu trazia nas mãos. Desde criança eu já sentia inclinação pela arte; na escola primária a professora sempre me convidava a desenhar no quadro negro para meus colegas copiarem nos seus cadernos; assim como os cartazes das festas eram de minha responsabilidade.

 

 

 

 

4 – Como você está encarando sua vida como artista hoje? Você é artista por inteiro ou isso ocupa as horas vagas?

 

Eu tenho tentado sobreviver como a maioria dos meus colegas. Num país onde o incentivo à cultura e educação foi transformado em banalidade, os artistas têm que superar as dificuldades para continuar produzir. Meu processo é irreversível, eu sou artista por inteiro. Não tem mais volta. Se a arte acabar hoje eu vou junto.

 

 

5 – Qual é a fixação? Muitos artistas tem fixação por longos períodos ou pela vida inteira, mesmo quando as fases vão se  sucedendo. As vezes é um tema, as vezes é uma cor, as vezes é um tipo de rabisco que está sempre presente. Existe isso?

 

Sim existe; eu tenho fixação pela esfera; há mais de 30 anos ela me persegue; muda a cor e a posição no espaço dependendo do contexto geral; ela virou um símbolo no meu trabalho; aberto à imaginação de cada um.

 

6 – O que você, o artista, gostaria que as pessoas que olham o seu trabalho soubessem sobre você, a pessoa humana.

 

Que eu sou um ser humano simples, mas voltado para os mistérios do universo, à procura de respostas no intuito de através da arte ajudar meus semelhantes em sua trajetória.

 

7 – Como é a vida? Filhos? Família? Como é o cotidiano?

 

Eu optei por não constituir família por entender que a liberdade me levaria a uma realização mais plena; foi uma decisão acertada; sem o peso de uma família nas costas eu pude mergulhar por inteiro nos meandros das possibilidades da criação e ajustar minha vida aos clamores da arte. Porém, há um ano eu perdi meu pai e como único filho solteiro tive que reestruturar minha vida para cuidar de minha mãe (91). Fiz uma limonada desse limão e minha filosofia de vida continuou intacta.

 

8 – Quais endereços devemos divulgar? E-mail, página, telefone, etc.

Podem divulgar: email: paulo@acencio.com   página: www.acencio.com  

 

 

9 – Alguma coisa curiosa para ser contada? Entrevistamos um caricaturista/retratista que desenhava as pessoas sempre de cabeça para baixo e ele nem se apercebia disso até a mulher perguntar por que fazia assim. Conhecemos outro que só pinta embriagado e pinta sempre que se embriaga. Parou de beber e parou de pintar.

 

Bem, acredito que seja curioso o seguinte: eu não gosto da presença de alguém no atelier, mesmo que fique quietinho num canto, quando eu estou pintando; não tem jeito, isso me incomoda muito. Por outro lado, eu costumo realizar apresentações públicas onde eu necessito de aplausos no final. É uma contradiçao que eu não sei como explicar.

 

10 – Existiram fases nítidas na carreira?

 

Na pintura, sim, várias.

 

11 – Quais os planos para o futuro, como artista? Como é sua estratégia comercial? Você vende em galerias, pela internet, no ateliê?  Você exporta?

 

Eu não tenho planos ambiciosos para o futuro, a não ser a construção de um atelier num lugar mais aprasível, com muita área verde. Este é um sonho que eu persigo. A minha estratégia comercial é deixar o barco correr; significa que eu não me fixo apenas num ponto. Meu lema é “o que pintar eu traço”.  Uma galeria aqui outra acolá; mala-direta pelo correio convencional, pela internet; há cliente que prefere visitar o atelier e por aí vai. Por vezes eu apresento projetos específicos, tal como a execução de Retratos de figuras ilustres para a Caixa Econômica Federal, cujas obras se encontram no Museu da Caixa em São Paulo e na Galeria dos Presidentes em Brasília. E o projeto que estou realizando atualmente para a Prefeituira Municipal de Ribeirão Pires; é composto de uma coleção de 20 telas de 130x100cm; o tema, Paisagens Hitóricas.

 

12 – O que lhe torna diferente dos outros artistas?  Como você descreve a sua arte?

 

Bem, eu não sei se sou diferente dos outros artistas; talvez no trabalho; na essência somos todos iguais; temos os mesmos questionamentos e objetivos.

Minha arte está ligada ao Realismo Fantástico, ou Mágico que é parente próximo do Surrealismo. Acredito que seja outra visão, um anglo extra do realismo conhecido. Tenho fascinação também pela pintura de Retratos clássicos; um tema sempre procurado.

 

Até breve

 

Rê Rodrigues

 

 

 

 

 

 

 

 

                  


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